Valorização Profissional na Odontologia

Cada dentista pode ter uma opinião, mas a maioria fará referência à melhora da remuneração como fonte principal de valorização. Será essa a bandeira correta?

A Odontologia vem se distanciando cada vez mais da visão de saúde e partindo para uma atuação prioritariamente estética, e os seus profissionais vistos mais como habilidosos artesãos do que como agentes de saúde. Dentistas cuidam de pessoas, e não apenas de dentes ou sorrisos esteticamente perfeitos. A Odontologia se distanciou da lógica médica e buscou outro caminho. Há serviços que mudam o seu sorriso em apenas um dia, fazem clareamentos milagrosos, Day clinics, “SPA dental” e tudo mais que se pode imaginar em valorização da estética, muitas vezes em detrimento da saúde ou da preservação da estrutura dentária. Não é ser contra a importância estética do sorriso ou da dentição, mas é importante não deixar que isso se sobreponha à tarefa primordial de um dentista, isto é, a saúde bucal.

Há mais de dez anos vários estudos vêm comprovando a importância da saúde bucal, principalmente da saúde periodontal, como ponto importante no controle dos fatores de risco de uma doença com alto índice de morbidade, como cardiopatias e diabetes, além de ser também um fator de risco para o nascimento de bebês prematuros ou de baixo peso. Os planos de saúde poderiam cada vez mais se beneficiar desses estudos e exercer a integração assistencial como prática comum em suas atividades, mas, na sua maioria, ainda repetem um modelo segmentado.

Em um mundo cada vez mais unificado e totalmente conectado, não se pode olhar para as pessoas de modo compartimentado. É importante lembrar que somos setes integrais, nos quais tudo o que acontece na boca se reflete em todo o organismo.

Em hospitais, a boca dos pacientes é constantemente ignorada. Imaginem a quantidade de placa bacteriana que é aderida á superfície dos dentes, em apenas um dia sem escová-los. Agora pensem que pacientes ficam internados em unidades de cuidados especiais em hospitais, como UTIs, por inúmeros dias, e na maioria das vezes sem nenhum procedimento de controle de placa e redução das bactérias bucais.

A visão assistencial integral nos serviços de saúde disponíveis no Brasil ainda está muito distante do ideal, mas há algumas ações isoladas que parecem ser o inicio de uma mudança. Serviços hospitalares privados, como o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, têm unidades odontológicas de laserterapia para tratamento de mucosites em pacientes oncológicos, e, em Curitiba, o Hospital Milton Muricy, tem protocolos de cuidados bucais para todos os níveis de pacientes internados e também para pré-operatórios, até mesmo de pacientes cardíacos. O Hospital de Clinicas de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, um hospital federal referencia para cirurgias cardíacas no Brasil, dispõe de uma unidade odontológica para o controle da doença periodontal em pacientes cardíacos, principalmente para pacientes com válvulas cardíacas.

Várias são as universidades no mundo e também no Brasil que mantêm equipes estudando a inter-relação doença periodontal com outras doenças sistêmicas e muito ainda será feito para a implantação de maneira definitiva da Odontologia e seus profissionais, no cuidado integral de pacientes, incluindo o dentista no grupo de profissionais de saúde que cuidam de patologias com alto índice de mortalidade, salvando vidas humanas.

Dessa forma, contribui-se para a valorização da Odontologia e de todos os seus profissionais, ampliando o mercado de trabalho e a importância dos dentistas, atuando em hospitais, serviços ambulatoriais multidisciplinares e participando ativamente do cuidado e controle de pacientes com cardiopatias, hipertensão e diabetes, com melhora da qualidade de vida das pessoas e redução dos altos custos no sistema de saúde, seja público, seja privado.

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Autor: Clêner Almeida
Artigo publicado na revista Odontologia de Grupo – Edição Out/Nov/Dez 2009
Revista publicada pelo Sinog – Sindicato Nacional das Empresas de Odontologia de Grupo