Periodontia Médica

Um conceito e seus fundamentos.

Periodontia médica se refere a  relação entre a periodontite e outras doenças, a maneira pela qual a periodontite pode ser fator de risco para essas doenças. As primeiras relações surgiram após estudos de Matilla, em 1989, na Finlândia, informando que problemas bucais poderiam ser fatores de risco para doenças cardiovasculares. Hoje existem vários estudos a respeito dessas relações, incluindo  doenças relacionadas a ateroesclerose, tais como acidentes vasculares cerebrais, hipertensão arterial e doença renal crônica. Além disso, a relação entre periodontite e nascimento de bebes prematuros e/ou baixo peso também é estudada. Revisões sistemáticas recentes indicam que periodontite é um fator de risco moderado tanto para problemas cardiovasculares quanto para prematuridade e baixo-peso.

A periodontite é capaz de aumentar os níveis plasmáticos de marcadores inflamatórios, tais como interleucina-1 (IL-1), interleucina-6 (IL-6), Fator de necrose tumoral alfa (TNF-a), e proteína C-reativa (CRP). Por outro lado, estudos mostram que o tratamento periodontal é capaz de reduzir seus níveis. A CRP é um marcador inespecífico de inflamação. É um exame de sangue fácil de ser solicitado e que nos informa se a periodontite pode estar apresentando alguma repercussão sistêmica. Na essência, o tratamento não muda, mas essa informação pode mostrar ao paciente como a periodontite poderia estar repercutindo no resto do corpo.

Caso essa relação causal entre periodontite e outras doenças seja estabelecida definitivamente, a odontologia, e em especial a Periodontia será mais valorizada. O problema não será apenas perder um dente, mas como a inflamação crônica poderá ser fator de risco para outras doenças. Nos Estados Unidos, planos de saúde médicos, tais como Aetna e Cigna, já oferecem tratamento periodontal para pacientes cardíacos e diabéticos.

Não podemos ainda afirmar para os nossos pacientes que se tratarmos as doenças periodontais estaremos diminuindo risco de outras doenças, principalmente doenças cardiovasculares. Ainda não temos esse tipo de estudo. No entanto, já temos estudos que demonstram que tratamento periodontal diminui os marcadores inflamatórios. Um estudo de Tonetti et al (2007) mostrou que o tratamento periodontal melhorava a disfunção endotelial, fator importante para pacientes cardíacos, hipertensos e renais crônicos. Como a melhora da disfunção endotelial melhora o prognostico de hipertensos, cardíacos e renais crônicos, é possível que o tratamento periodontal possa trazer benefícios para o bem estar desses pacientes. Estudo realizado no Hospital Federal de Cardiologia do Rio de Janeiro mostrou que o tratamento periodontal diminuiu massa ventricular esquerda, pressão arterial sistólica e diastólica, além de melhorar a função endotelial em pacientes hipertensos refratários.

Outra associação importante é com o diabetes mellitus tipo 2. Nesse aspecto, existe uma associação bi-direcional. O diabetes é fator de risco para periodontite, enquanto a periodontite pode ser fator de risco para o diabetes. Além disso, o controle da doença periodontal pode melhorar o controle glicêmico de pacientes com diabetes mellitus tipo 2.

A classe odontológica deve continuar procurando evidências sobre a relação causal entre periodontite e outras doenças. A classe médica não é uniforme na aceitação desse conceito da Periodontia médica. Alguns o rejeitam completamente já que não acreditam que essa infecção/inflamação bucal possa interferir no resto do organismo. No entanto, uma parcela cada vez maior começa a aceitar esse conceito, e curiosamente pode ser mais entusiasmado que os próprios, dentistas. A partir do momento que explicarmos a plausibilidade biológica dessa relação, que mostrarmos as evidências científicas já existentes, médicos entendem e aceitam muito bem a Periodontia médica. Inclusive, muitos artigos de periodontia médica estão publicados em revistas médicas, o que ajuda na informação a classe médica. É fundamental que a classe odontológica continue empenhada em realizar estudos que aprofundem essa questão. No futuro, é possível que o tratamento periodontal seja necessário num tratamento médico e passe a fazer parte de um esquema mais amplo de saúde geral do paciente.

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Autor: Professor Dr. Ricardo Fischer
Professor Titular de Periodontia da FO – UERJ
Diretor do IO PUC
Médico, cirurgião dentista, PhD,
Presidente da SOBRAPE